mulher gravida esperando segundo filho

Maternidade, Autismo e Fé: A Jornada até Nosso Segundo Filho

Há 10 anos, quando recebemos o diagnóstico de autismo do nosso filho, foi como se o chão, o teto e as paredes tivessem desaparecido. Fiquei completamente desestruturada, sentindo que aquele era o fim de tudo. Diante desse cenário, pensar em um segundo filho parecia algo improvável. A resposta para essa pergunta era sempre a mesma: “jamais”.

O Diagnóstico que Adiou Nossos Planos para ter um Segundo Filho

O diagnóstico, em 2015, foi um impacto profundo, como já contei aqui no blog. Eu não sabia nada sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), tampouco conhecia famílias próximas que estivessem passando pela mesma situação.

Além do impacto emocional, o TEA desfez nossos planos de ter um segundo filho. Quando me casei, o plano era claro: o segundo filho viria até os cinco anos do primeiro, para que crescessem juntos. Mas, como a vida ensina, planos existem para serem ajustados.

O Medo que Nos Paralisou

À medida que aprendíamos mais sobre o espectro e enfrentávamos suas diversas faces, os desafios nas terapias e, ainda, o desemprego do meu esposo em meio a uma crise nacional, o sonho de um segundo filho foi se afastando cada vez mais.

Meu maior medo era que outra criança também estivesse dentro do espectro. Embora eu não conseguisse verbalizar isso, era o sentimento que mais me afastava da ideia de aumentar a família.

Conversei com a neuropediatra do Emanuel, e ela me explicou que havia um aumento de 10% na chance do segundo filho também ser autista. Ainda assim, eu só conseguia enxergar os 20% de risco — e não os 80% de chance de não ser. O medo me fazia recuar.

Pandemia, Perdas e Mais Medos

Durante esse tempo, ainda enfrentamos a pandemia de COVID-19. Isso trouxe novos temores e inseguranças. Pouco antes, conheci histórias de pessoas próximas que perderam bebês de forma inesperada, o que mexeu ainda mais comigo.

Já com mais de 35 anos, o receio só aumentava. A nova maternidade parecia cada vez mais distante.

Adoção: Um Novo Caminho?

Em meio a tantas conversas, um dia tive coragem de propor ao meu esposo a ideia de adoção. Sempre desejei adotar, mesmo antes de casar. Não precisava ser um bebê pequeno, e me parecia o caminho mais viável diante de tudo.

Mas aí veio o dilema: como explicar ao Emanuel, que é autista e já estava crescido, que teria um irmãozinho da noite para o dia? Ele nunca havia pedido um irmão e não demonstrava muito esse desejo.

Essa reflexão foi dolorosa, mas necessária. Mais uma vez, parecia que seríamos apenas nós três para sempre.

Quando Tudo Começou a Mudar

Não sei ao certo quando meu sentimento mudou, mas foi há cerca de três anos. Um dia, no parquinho, Emanuel observou dois irmãos brincando e comentou sobre ser filho único. Naquele instante, uma luz acendeu dentro de mim.

Perguntei se ele queria ter um irmão, e ele respondeu: “não sei”. A resposta foi tímida, mas aqueceu meu coração. Era uma faísca de esperança pois meu esposo também ainda guardava consigo esse desejo.

Nesse meio tempo, enfrentamos a doença do meu pai, que precisou de uma cirurgia cardíaca e várias internações. Com a rotina de hospital, terapias, trabalho e tudo mais, muitas vezes agradeci por ainda não estar grávida.

A Chegada do Segundo Filho

Mas nenhuma tempestade dura para sempre. Em abril de 2024, confirmamos a nova gestação. Eu estava com 37 anos, então fiz várias avaliações médicas — o TEA já não era a única preocupação.

Pedro Gabriel nasceu em dezembro, na mesma semana em que Emanuel completou 13 anos. Foi um momento mágico. Apesar de imprevistos — entre eles a necessidade de internação do meu pai e, logo em seguida, da minha avó — tudo acabou bem.

Deus foi generoso. Logo estávamos todos em casa, vivendo a alegria da chegada do nosso segundo filho.

Como o Irmão Mais Velho Reagiu

Durante toda a gestação, meu olhar esteve muito atento ao Emanuel. Contamos sobre o bebê desde o início. Ele chorou na primeira vez, mas logo disse que cuidaria de mim — e assim fez.

Ele passou a contar para pessoas próximas, sugeriu o nome (que escolhemos juntos) e demonstrava cada vez mais carinho pelo irmão que chegaria.

Teve suas particularidades: não quis ir a ecografias, mas assistia às gravações. Também se preocupou com o espaço do quarto do bebê, e conseguimos organizar tudo para respeitar seu espaço.

Nos emocionamos com pequenas atitudes — como ele cantando para a barriga e chorando de alegria ao pensar que Pedro Gabriel seria seu melhor amigo.

Notamos algumas estereotipias novas, fala mais infantilizada e maior busca por atenção, mas nada perto do que temíamos.

Hoje, Emanuel e Pedro Gabriel, dividem algumas tardes tranquilas, muitas vezes dormindo juntos no sofá. É um amor puro, que enche a casa de paz.

Não Desista do Seu Sonho: Confie no Tempo de Deus

Fiquei muito tempo sem escrever, pois a gestação, a adaptação à nova rotina e a saída do trabalho exigiram muito de mim. Mas posso dizer, com o coração cheio: valeu a pena.

Se esse é o desejo da sua família, ore, planeje e espere. Deus não se atrasa. Ele capricha. E conosco foi exatamente assim.

Pedro Gabriel chegou trazendo mais vida, amor e esperança. A experiência e a maturidade ajudaram a tornar o puerpério mais leve (com seus desafios, é claro). A diferença de idade entre os irmãos também nos trouxe vantagens, já que Emanuel já tem muita autonomia em várias tarefas do dia a dia.

Conclusão

Nem sempre os caminhos são lineares. Muitas vezes, o medo e a dor nos fazem adiar sonhos. Mas Deus conhece o tempo certo de todas as coisas.

Hoje, somos quatro — não somos uma família perfeita, mas nos sentimos muito felizes e com certeza mais  completos.

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